Literatura de sangue

Talvez por uma questão de temperamento, formação ou ideologia, eu não suporto o repetitivo excesso de violência e crueldade da literatura brasileira contemporânea. O verbo é exatamente esse: suportar. Ontem um amigo me disse que nossa literatura, atualmente, flutua entre dois extremos: auto-ajuda e sangue espirrando das páginas. Ao menos esses são os tipos de textos que conseguem aparecer e chegar aos leitores. São os textos que fazem sucesso. Os livros de auto-ajuda, às vezes disfarçados de literatura, são sucesso de público. Já a crítica caiu de joelhos e admite que a violência na literatura é muito bom, já que a arte dialoga com seu tempo, tritura, mastiga e devolve, com cheiro de pólvora, sangue e corpos em decomposição.
Ontem fui assistir a fala de uma escritora brasileira chamada Verônica Stigger. Ela é da turma que não tem pena de matar e torturar personagens, até que os miolos sejam projetados na parede mais próxima. No caso dela, eu percebi uma ideia de projeto literário. Entendi o seu desejo de causar estranhamento, de mostrar o quanto estamos egoístas, indiferentes, do quanto consentimos a violência, em pequenas doses. Gostei muito da Verônica. Elegante, segura, preparada, defende suas ideias e respeita imensamente o próprio texto. Gostei da coerência do seu trabalho, de pensar cada livro publicado como produto e obra de arte, matéria e texto como carne e sangue. Aliás, carne e sangue é o que não falta na obra da Verônica. Ela é gaúcha. Eu, vegetariana. Mesmo assim, demos muita risada ontem, comodamente sentadas na beira do abismo das nossas imensas diferenças.
Posso dizer que agora, graças a Verônica, compreendo melhor a literatura contemporânea brasileira, escrita por pessoas com os pés fincados (até demais) no tempo em que vivem.
Apesar disso, continuo da mesma forma, sem conseguir suportar. Não quero e nem consigo escrever sobre isso. Estou no passado. Não acredito na morte do romance. Estudo as formas tradicionais de estrutura literária. Ainda acredito na poética do Aristóteles e nos Formalistas Russos. Busco a escrita do romance como quem brinca de Deus. Escrevo sobre tempos que não estão mais aqui. Quero falar do que faz falta.


Escrito porSocorro Acioli às 9:30 AM 0 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

Jalla Brasil 2010

Quem gosta de literatura hispano-americana poderá participar de um banquete no mês de agosto. A Universidade Federal Fluminense (leia-se minha amada orientadora Lívia Reis com ajuda da brilhante professora Eurídice Figueredo) trouxe para o Brasil as Jornadas Andinas de Literatura Latino Americana, o JALLA, cuja programação você pode ver clicando aqui. Serão cinco dias inteiros de mesas, palestras e debates sobre o tema. Lendo a programação eu tenho vontade de me dividir em cinco, pelo menos, porque os trabalhos inscritos estão bons demais.
Com muito orgulho, estou na mesa sobre García Márquez, acompanhada de excelentes pesquisas e coordenada por um colombiano, cachaco da gema!

Sessão 133
Sala 212. Bloco B. Em torno de Gabriel García Márquez

Coordenador: Jerônimo Duarte Riascos

• A infância no romance latino-americano: Gabriel García Márquez e Jorge Amado.
Socorro Acioli (Universidade Federal Fluminense).

• ! Muchacho, que Dios te la conserve! (Oralidad y escritura en Cien años de soledad).
José Manuel Rodríguez Angulo (Universidad Católica de Temuco).

• A Atualidade de Cien años de Soledad.
Ana Elisa Vilas Boas Serra (UniverCidade).

• Aureliano Babilônia es un Abaporu.
Jerônimo Duarte Riascos (Universidad de los Andes).


( Quem leu Cem Anos de Solidão em Espanhol sabe que o título do trabalho José Manuel Rodríguez Angulo não poderia ser mais engraçado!)

Na volta eu conto como foi!

Escrito porSocorro Acioli às 9:28 AM 1 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

Caçando silêncio

São quase duas da manhã. A cama convida o corpo para dormir, mas o silêncio convida a alma para escrever. Vivo isso vários dias na semana. O tempo passa e o atraso do sono pesa cada vez mais no dia seguinte. Não roubo as horas do meu descanso por ser notívaga ou insone, mas por depender do silêncio para trabalhar. Além dele, preciso saber que sou dona do tempo a seguir. Que tenho duas, três, quatro horas fartas e minhas, só minhas, para escrever ou terminar as infinitas traduções que preciso entregar ontem, sempre ontem. Esse tempo em silêncio não acontece durante o dia, infelizmente. Por isso, aproveito a madrugada tranquila, mesmo correndo o risco de acordar arrependida no dia seguinte, constatando que algo está errado nessa organização dos dias e noites, silêncio e som, inspiração e sono.

Escrito porSocorro Acioli às 1:17 AM 1 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

Turismo literário: para amar Fortaleza

Artigo publicado no Jornal O POVO, dia 21 de julho de 2010.


Artigo

Turismo literário: para amar Fortaleza

21/07/2010 02:00


Ontem à tarde, enquanto tomávamos um café na agradável livraria que agora acolhe nossas confrarias literárias, escutei o relato maravilhado da professora Fernanda Coutinho sobre viagem recente a Cordisburgo, terra de Guimarães Rosa.

A pequena cidade mineira recebe os turistas com as palavras do seu escritor maior ecoando por todos os lugares e proporcionando um mergulho sensorial na obra rosiana.


Para Fernanda, o ponto mais emocionante da viagem foi escutar os Miguilins, um grupo de crianças e adolescentes que conta as histórias de Guimarães Rosa. Trajando uma blusa branca com uma orelha desenhada – porque escutar é sempre mais importante do que falar – os Miguilins emprestam seu entusiasmo juvenil, o brilho nos olhos e o sotaque mineiro para dar vida aos personagens rosianos.


Ouvindo o relato de Fernanda fiquei pensando na nossa Fortaleza, essa cidade onde todos os dias um livro novo é lançado, mas a literatura, a verdadeira, anda tão distante da população.


Além das estátuas de Patativa do Assaré, Rachel de Queiroz e das várias Iracemas, o que temos nas ruas que nos transporte para a obra dos grandes escritores? O que temos a mostrar para um turista além do circuito praia-caranguejo-show de humor, apresentado oficialmente como o grande atrativo

turístico da nossa cidade?


A solução para dizimar essa pobreza de opções pode estar no projeto PerCursos

Urbanos, criado pela ONG Mediação de Saberes.


A ideia do projeto é passear de ônibus pela cidade com o auxílio luxuoso de especialistas em temas diversos.


No caso da literatura, já aconteceram percursos sobre Adolfo Caminha, Gustavo Barroso, Moreira Campos, Rachel de Queiroz, dentre tantos outros. O público tem a oportunidade de conhecer lugares que fizeram parte da vida e da obra dos escritores, parando para ouvir trechos dos livros, vivendo um mergulho sensorial semelhante ao de Fernanda na terra dos Miguilins.


Esse tipo de percurso deveria ser obrigatório para os estudantes da nossa cidade. Sonhando um pouco mais alto, nossas agências de turismo poderiam oferecer um roteiro cultural e literário aos turistas que chegam a Fortaleza buscando mais que dunas brancas e piadas de duplo sentido.


Ficarei imensamente feliz no dia que o nosso aeroporto receber os turistas com um banner gigantesco, lembrando que essa é a terra de José de Alencar, Rachel de Queiroz, Ana Miranda, Adolfo Caminha, Moreira Campos... Só a literatura tem o poder de construir uma cidade bela.

Socorro Acioli - Jornalista, escritora e doutoranda em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminens
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Escrito porSocorro Acioli às 2:28 PM 0 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

07 de junho - quatro anos de blog

Dia 07 de junho este blog completou 04 anos de vida e eu ... esqueci. Com a lista de coisas que tenho feito ao mesmo tempo é absolutamente compreensível.

Quero aproveitar o marco para repensar o blog também. Confesso que tenho uma vontade enorme de encerrar esse aqui e partir para uma nova proposta, focada em literatura e cinema. Mas ao mesmo tempo eu não sei se funcionaria, a não ser se fossem posts curtos. Ninguém aguenta texto longo na internet, ainda mais em tempos de Facebook e Twitter. A tendência é fazer tudo rapidinho por aqui e deixar o tempo escorrer lentamente perto dos livros.
Encerrar o blog está fora de cogitação. O Facebook não substitui. Essa é minha casa na internet e dela eu não saio.
O curioso é que os posts mais populares ( e mais cobrados) são os das receitinhas e fotos da minha vida pessoal, viagens, palestras. Eu gosto de ver blogs assim, dos outros.
Um dia eu comentava sobre a minha dificuldade em definir esse blog e minha amiga Fátima resumiu rapidinho a proposta: é o diário de uma escritora.
Acho que é isso. Só falta decidir se mudo pro Wordpress e construo casa nova ou se fico aqui mesmo. Leitores: conto com sua ajuda para discutir a relação. Congratulations, borboletas!

Escrito porSocorro Acioli às 8:25 AM 3 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

Dois convites

No dia 9 de julho, sexta-feira, ás 17h, a Livraria Cultura de Fortaleza promoverá a contação de histórias do meu livro infantil "Bia que tanto lia"


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No dia 17 de julho, às 16h, uma tarde de sábado, farei outra visita guiada pelo Theatro José de Alencar, mostrando os lugares onde nasceu, viveu, amou, morreu e apareceu (e ainda aparece) a Bailarina Fantasma, personagem do meu romance publicado em janeiro.


Espero vocês na Livraria Cultura e no Theatro José de Alencar.

Escrito porSocorro Acioli às 11:42 PM 0 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

O livro que vem

Eu adoro os meus próximos livros, os que ainda não escrevi. São vários e eu amo todos eles. Penso neles todos os dias. Adoro a fumaça cinzenta que cobre o rosto dos meus personagens, esses que ainda nem consigo ver direito. No momento, são três. Três romances. Eles ficam todo tempo tentando provar porque cada um é mais urgente que o outro. Há uma disputa, por mais que eu tente coordenar os ânimos. Um deles é comprometido com uma editora, talvez por isso seja o mais tranquilo. As vezes ele me assusta, de repente, mostrando a sua urgência, principalmente se o tema cruza meu caminho.
O outro já me espera desde 2006. Foi iniciado várias vezes e agora, com dois capítulos, é um projeto seguro. Encontrei o tom e tenho o argumento inteiro. Sei o que vai acontecer, posso contar a história toda pra você. Já contei para algumas pessoas e sempre, sempre, causa impacto. Forte impacto.
O terceirinho que não me escute, mas é o mais distante para mim no momento. Ao mesmo tempo, ele também tem data limite pra nascer.
São como filho em barriga da mãe. Só tenho bons prognósticos, só espero o melhor de cada um. Assustador é encará-los. É começar, seguir adiante, ter a coragem de me expor tanto em palavras. Mas eu encaro. Demora, o dia chega. Eu enfrento a fera e não há prazer maior nesse mundo do que ter o livro nas mãos, aquele exemplar encadernado, salpicado do sangue que sai da testa de quem escreve. Sangra. Sai de dentro. E eu escrevo porque não consigo viver sem esses mundos todos dentro de mim. Eu não sobreviveria.

Escrito porSocorro Acioli às 7:48 PM 2 Barulhinho bom... Links para esta postagem  

Se vende una familia


Essa é a capa do
Se Vende una familia, em Espanhol, que será lançado em agosto na Bolívia e para toda América Latina. O livro foi publicado pela Alfaguara para leitores na faixa de doze anos de idade. Fico feliz por levar a história do Dragão do Mar para minha Cordilheira dos Andes, que tanto amo. É o meu primeiro livro publicado no exterior. Primeiro de muitos. Aguardem notícias do lançamento. Será inesquecível.



Atualização: o lançamento foi adiado para 2011 por causa do Plan Lector da editora. Achei bem melhor!

Escrito porSocorro Acioli às 10:54 AM 1 Barulhinho bom... Links para esta postagem