We will always have Paris
Quarta-feira, Maio 26, 2010
Ainda lembro a cena com todos os detalhes. Eu estava em Cuba para o curso de roteiro com o García Márquez. Éramos nove os escolhidos. Duas apartaram e os sete ficaram muito, muito amigos. Até hoje. Assistíamos aula de manhã e partíamos no primeiro ônibus da tarde para Havana, onde acontecia o festival de cinema.
Era noite e estávamos felizes nos jardins do Hotel Nacional de Cuba. Cheiro de limão e menta, som do mar batendo nas pedras do Malecón. Meus amigos colombianos, Ana e Juan, super roteiristas, comentavam o curso que fizeram com um professor fanstástico nos EUA. Lembro perfeitamente da Ana falando o seu nome: Robert McKee. Comentaram o curso, o livro e o professor como personagem. Gravei o nome e não esqueci nunca mais.
Comprei o livro logo que voltei para o Brasil. Isso foi em 2006. Estudo o "Story" do McKee há quatro anos. E pelo mesmo tempo planejei fazer o curso em Los Angeles. Fiz as contas várias vezes. Programei a viagem. Entrei no site, fiz cadastro na newsletter.... Até descobrir que ele viria dar um curso no Brasil pela primeira vez. As aulas aconteceriam no Teatro do Shopping Eldorado. Meses antes, dois tios do meu marido mudaram para um apartamento EM FRENTE ao shopping. Ou seja: alguém lá em cima queria muito que eu fizesse esse curso. E eu fiz. Foram quatro dias intensos, das nove da manhã às sete da noite, ouvindo ele explicar melhor tudo o que eu estudava há anos sobre estrutura, substância, personagens, cenas, beats, idéia controlodora, incidente incitante, pontos de virada.
No último dia a aula prática foi uma análise do Casablanca cena a cena. "As time goes by" ficou ainda mais linda. Mergulhei nesse curso e saí de lá renovada. Teve gente que não gostou da disciplina rígida do professor, que não admitia ruídos e atrasos. Tudo na vida é uma questão de ponto de vista: eu adorei. Uma semana depois, consegui concluir meu primeiro roteiro. É ou não é revolucionário?
Escrito porSocorro Acioli às 8:34 AM 4 Barulhinho bom... Links para esta postagem
Marcadores: Estudando roteiro
Resenha de Marisa Lajolo para a Bailarina Fantasma
Segunda-feira, Maio 10, 2010
Uma bailarina para José de Alencar
Por Marisa Lajolo
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A bailarina fantasma, de Socorro Acioli (2009) é um primor de livro, para todas as idades, sem contra-indicação. Como em todo bom romance, na história de Anabela verdade e imaginação, ficção e história entretecem-se com tanta sutileza, que o leitor quase não fica sabendo onde começa uma e onde termina a outra.
Bailarina? Fantasma? Quem é quem? Será que perdi alguma coisa... ?
A história protagonizada por uma menina órfã de mãe (a Anabela) atravessa várias épocas, tendo como eixo a construção e a restauração do belíssimo Theatro José de Alencar, em Fortaleza. Nesta vertente do livro, o trabalho cuidadoso de pesquisa histórica, reconstrói o tempo em que a estrutura metálica de edifícios públicos brasileiros vinha da Europa, em navios que levavam meses até chegar ao destino e que, junto com as ferragens, traziam os profissionais capazes de transformar as ferragens em edifícios. No caso, o profissional era Joseph MacFarlane, também personagem da história.
A história da construção do teatro — como em todo romance que se preza — entrelaça-se a uma historia de amor que depois se desdobra em outra história de amor... O enredo que começa nos primeiros anos do século XX, se espicha, cruza o tempo e invade a vida de Anabela, menina de hoje, filha de Marcelo, responsável pela restauração do teatro.
A partir de um diário encontrado no porão do teatro durante as obras de restauração, vêm para dentro do livro outras personagens, entre elas, a bailarina fantasma do título. É entre a voz de vários destes personagens que a história vai ganhando detalhes. Muito sábio e bem orquestrado, o artifício dos muitos narradores acrescenta à história variedade de falas e de perspectivas. Como num quebra cabeças, o leitor vai acompanhando, de vários pontos de vista — que, no entanto, deixam sempre uma pontinha de mistério no que narram —, o conjunto de acontecimentos pelos quais um caderninho que chega às mãos de Anabela mergulha a menina numa aventura de resgate do passado e restauração de identidades.
A figura da mãe morta é uma presença constante na vida de Anabela, trazida para o livro em passagens escritas com a pungente leveza que a orfandade sugere. Para onde vão os mortos, pergunta-se de diferentes maneiras Anabela. E o leitor, com ela, faz eco à pergunta. E talvez às respostas (provisórias) que a menina alinhava.
Além de amor, a história tem também suspense: baús antigos, cadernos, cartas escondidas constroem o suspense e são portal do presente para o passado.
Num momento em que o sobrenatural está na moda — ao menos como tema literário — este novo livro de Socorro Acioli é uma bem vinda renovação do assunto. Ao fazer sua bailarina fantasma assombrar uma história verdadeira (a construção e restauração do Theatro José de Alencar), a autora, ao mesmo tempo em que se mantém fiel ao perfil cearense de sua obra, abre uma brecha para fecundar o histórico com o místico e, ao mesmo tempo, ancorar o misticismo numa história tão sólida como a estrutura de ferro de um edifício que até hoje se marca pela sua beleza arquitetônica.
Esta estrutura de ferro, por sua vez, perde seu gigantismo, ao ser cruzada e recruzada pelas frágeis figuras de leves bailarinas. Muito bonito!
A história de Giselle — personagem tema e título do balé do mesmo nome — é, de certa maneira, re-escrita pela história de Socorro que, de passagem, menciona a história da moça apaixonada que, mesmo depois de morta, salva da morte seu bem amado. Clara e Giselle, Gabriel e Albrecht bem podem ser duplos nas histórias. Será que são? Os leitores que confiram...
Se o enredo do livro é, assim, cheios de arabescos que, como num balé bem orquestrado, unem história e imaginação, o livro que lhes serve de suporte tem um projeto gráfico que está à altura da sofisticação do projeto literário. Os arabescos na capa elegante reproduzem-se nas páginas duplas que introduzem cada capítulo, cuja primeira linha, em grandes letras lilases , destacam-se na página. O procedimento repete-se ao final de cada um dos 21 capítulos do livro, por sua vez agrupados, como nos textos dramáticos, em três atos, numa formatação bem adequada a uma história que tem um teatro talvez mais do que como mero cenário — como personagem.
Se o enredo do livro é, assim, cheios de arabescos que, como num balé bem orquestrado, unem história e imaginação, o livro que lhes serve de suporte tem um projeto gráfico que está à altura da sofisticação do projeto literário. Os arabescos na capa elegante reproduzem-se nas páginas duplas que introduzem cada capítulo, cuja primeira linha, em grandes letras lilases , destacam-se na página. O procedimento repete-se ao final de cada um dos 21 capítulos do livro, por sua vez agrupados, como nos textos dramáticos, em três atos, numa formatação bem adequada a uma história que tem um teatro talvez mais do que como mero cenário — como personagem.
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Chimamanda Adichie
Quarta-feira, Maio 05, 2010
Para que serve a literatura? A pura literatura, a arte de criar um mundo com palavras, para que serve isso? Você já se fez essa pergunta. Eu também, várias vezes. Chego a aprofundar a questão ao ponto de, em dias difíceis, achar que eu poderia fazer algo mais útil pelas feridas abertas desse mundo. Na próxima vez em que eu tiver dúvidas sobre a função, missão, serventia, utilidade ou razão de existir da minha literatura, voltarei a assistir esse vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. São dezoito minutos de fala onde nenhuma palavra é em vão. Ela apresenta as suas ideias com a clareza de todo bom contador de histórias, tocando temas profundos de forma contundente e muito leve. Impactante. Emocionante. Vou ficar feliz se você assistir.
Escrito porSocorro Acioli às 8:55 AM 3 Barulhinho bom... Links para esta postagem
Marcadores: Literatura
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Terça-feira, Maio 04, 2010
Confesso que acho esse banner o mais bonito da história deste blog. Fala muito sobre a minha próxima fase de escrita. Assim que eu terminar uma série de trabalhos a fazer, voltarei a mergulhar em um romance começado em 2006 e que me espera pacientemente. Já comecei algumas versões, mas dispensei todas. Aconteceu a mesma coisa com a bailarina e isso me faz lembrar as palavras do meu mestre, García Márquez, nos dias de oficina em Cuba: escrever, apagar, rasgar, escrever, apagar, rasgar... quase uma lei do processo de escrita.
O livro é secreto, claro. Só adianto uma coisa: é para a editora Biruta.
E sobre o banner, gostaram? Eu adorei!
Escrito porSocorro Acioli às 10:10 PM 2 Barulhinho bom... Links para esta postagem
Marcadores: Editora Biruta, Literatura
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