Literatura de sangue
Sexta-feira, Julho 30, 2010
Talvez por uma questão de temperamento, formação ou ideologia, eu não suporto o repetitivo excesso de violência e crueldade da literatura brasileira contemporânea. O verbo é exatamente esse: suportar. Ontem um amigo me disse que nossa literatura, atualmente, flutua entre dois extremos: auto-ajuda e sangue espirrando das páginas. Ao menos esses são os tipos de textos que conseguem aparecer e chegar aos leitores. São os textos que fazem sucesso. Os livros de auto-ajuda, às vezes disfarçados de literatura, são sucesso de público. Já a crítica caiu de joelhos e admite que a violência na literatura é muito bom, já que a arte dialoga com seu tempo, tritura, mastiga e devolve, com cheiro de pólvora, sangue e corpos em decomposição.
Ontem fui assistir a fala de uma escritora brasileira chamada Verônica Stigger. Ela é da turma que não tem pena de matar e torturar personagens, até que os miolos sejam projetados na parede mais próxima. No caso dela, eu percebi uma ideia de projeto literário. Entendi o seu desejo de causar estranhamento, de mostrar o quanto estamos egoístas, indiferentes, do quanto consentimos a violência, em pequenas doses. Gostei muito da Verônica. Elegante, segura, preparada, defende suas ideias e respeita imensamente o próprio texto. Gostei da coerência do seu trabalho, de pensar cada livro publicado como produto e obra de arte, matéria e texto como carne e sangue. Aliás, carne e sangue é o que não falta na obra da Verônica. Ela é gaúcha. Eu, vegetariana. Mesmo assim, demos muita risada ontem, comodamente sentadas na beira do abismo das nossas imensas diferenças.
Posso dizer que agora, graças a Verônica, compreendo melhor a literatura contemporânea brasileira, escrita por pessoas com os pés fincados (até demais) no tempo em que vivem.
Apesar disso, continuo da mesma forma, sem conseguir suportar. Não quero e nem consigo escrever sobre isso. Estou no passado. Não acredito na morte do romance. Estudo as formas tradicionais de estrutura literária. Ainda acredito na poética do Aristóteles e nos Formalistas Russos. Busco a escrita do romance como quem brinca de Deus. Escrevo sobre tempos que não estão mais aqui. Quero falar do que faz falta.
Escrito porSocorro Acioli às 9:30 AM
Marcadores: Literatura
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