A moça de boa família

Escrevi um conto para adultos. Foi publicado na Revista Aldeota, número 7. E agora está aqui, para os leitores do blog.



A Moça de Boa Família

Socorro Acioli

Se você algum dia tiver a sorte de ser apresentado à Moça de Boa Família, notará que ela sempre diz o nome e sobrenome logo no início da conversa. Em cinco minutos dirá quem era seu pai, quem foi seu avô, quem são seus tios, porque ela quer que você saiba exatamente com quem está falando.

A Moça de Boa Família não é bonita, mas sabe se vestir e usa Lâncome. Não é inteligente, mas o seu pai era e isso é o que importa. Quem tem um bom sobrenome na província não precisa de mais nada, tolice perder tempo. Não fez nada de relevante, já basta a contribuição que o pai deixou na cidade. Não tem ideias próprias, não gosta de ler, mas o seu pai tinha uma bela biblioteca e se algum dia ela precisar de um livro, sabe onde encontrar. Mesmo assim, ela tem livros em casa, que fique bem claro. A arquiteta disse que é fino ter alguns exemplares de capa dura na mesinha da sala e ela concordou. São livros de arte. Arte é chique. E a Moça de Boa Família sabe ser chique.

Engana-se quem pensa que sua vida é moleza. Ela trabalha das nove às duas em um emprego público, onde entrou sem concurso. O diretor, à época, reconheceu a importância de ter a Moça de Boa Família entre os seus funcionários. Em cargo de chefia, porque a Moça fez faculdade. Optou pela particular, é claro, muito mais seguro e confortável.

Além do trabalho, ainda tem a casa, o Marido de Boa Família, três filhos, quatro empregadas para administrar. Isso sem falar nos eventos sociais. Quase todos os dias a Moça tem convite para atender. Aniversário das amigas, das mães das amigas, dos filhos das amigas. Todo mundo de Boa Família. Sempre uma novidade, uma plástica, uma nova grife, um novo designer de jóias, tudo de bom! Você já deve ter visto essa turminha de Bem Nascidas nos jornais. Os colunistas adoram a Moça de Boa Família e não perdem uma festa onde ela esteja. Tem gente que diz que ela paga para aparecer,mas é inveja. Pura inveja. Ela aparece porque tem carisma.

Com tudo isso você pode achar que a Moça de Boa Família é feliz e não tem problemas, mas é engano seu. No momento ela está enfrentando uma barra. Seu irmão mais novo cismou de fazer universidade pública e aconteceu o pior: está apaixonado por uma Moça Sem Sobrenome. É uma mulher jovem, magra, bonita, inteligente, aluna de Mestrado, bolsista da Capes - como se isso tudo pudesse compensar a falta de um sobrenome. Não sabe se vestir, gasta todo o dinheiro com livros. Não sabe sequer o que é um óculos Tom Ford! Constrangedor.

Tudo o que a Moça de Boa Família queria era ver o irmão casado com uma de suas Amigas Bem Nascidas. Elas vivem perguntando quem é a felizarda, de onde veio e a Moça não sabe mais o que responder. Se esse casamento realmente der certo, ela já avisou que não vai querer os seus Filhos Bem Nascidos misturados com os Primos Sem Sobrenome. Sequer convidará para os aniversários das crianças. Já pensou como ficaria feio no jornal a foto dessa moça mal vestida, que ninguém sabe de onde veio? Todo mundo perguntando quem é?

Como se fosse pouco o seu sofrimento, a Moça de Boa Família ainda precisa suportar os absurdos de suas empregadas. A última, vejam só, pediu para sair mais cedo justamente no dia em que as Amigas Bem Nascidas iriam jogar pôquer na casa da Moça. A empregada disse que o filho estava no hospital e precisava ficar com ele. Que absurdo! Esse Povo só fica doente nas piores horas, a Moça vive dizendo isso. Ela não tem paciência com Esse Povo. Eles se multiplicam. São garçons, babás, empregadas, porteiros... e o que a Moça mais detesta neles é que nunca aprendem com quem estão falando.

Ás vezes a mãe da Moça pede que ela tenha um pouco mais de caridade. Isso é injusto. Até parece que a mãe não sabe que todos os domingos a Moça de Boa Família vai a Igreja, reza um Pai Nosso pela paz no mundo e deixa cinco reais para as obras de caridade da paróquia. Cinco reais, todo domingo. Quer mais caridade do que isso?

Escrito porSocorro Acioli às 8:39 PM  

5 Barulhinho bom...:

ROBERTA MARTINS disse... 2:06 PM  

engraçado, nós que não somos moça de família temos uma tendencinha a pensar que elas que são felizes. a ignorância, em alguns casos, corre algum risco de ser uma benção? praticamente impossível. há...conheci um amigo seu na bienal, fabiano piuba. um beijo. tentarei ir te ver da sexta.

Raquel disse... 9:57 AM  

é verdade..pura ignorancia..

somos humanos ..e temos vazios dentro de nós..independe das coisas exteriores que nos cercam..
(mas as vezes eu acho o vazio uma forma criativa do universo de dizer que temos muito o que completar e criar) e ainda descobrir sobre nós mesmas..

adorei o jeito que vc escreve

beijos
http://newsbeautymodacultura.blogspot.com/

Lara disse... 11:02 PM  

Pois eu não acho que elas são felizes, porque felicidade não se compra. Isso é MUITA ILUSÃO!!

Alexandra disse... 10:34 AM  

Existem muitas moças assim. Existem muitas outras que mesmo com todas essas características do pai e da família conseguem fazer seu próprio caminho também, mesmo que a sombra do sobrenome a siga por resto da vida. A intenção, eu sei, não é generalizar. Mas inevitável não pensar nas exceções! Excelente texto.

Lucila disse... 4:35 PM  

Adorei !!! vou compartilhar, beijos,
Lucila

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