Descanse em Paz, Marcela Montenegro

Quem me acompanha pelo Twitter tem visto que desde segunda-feira eu estou absurdamente chocada e indignada com o assalto que tirou a vida de Marcela Montenegro aqui em Fortaleza. Não éramos amigas. Conheci a Marcela na adolescência. Estudávamos em escolas diferentes mas tínhamos amigos em comum. Um tempo depois nos reencontramos pelo Shopping Avenida. Eu trabalhava em uma livraria e ela na loja da família, a Pirineus. Há poucos mais de quinze dias peguei o mesmo elevador que ela, aqui no meu prédio, onde moram pessoas da sua família.
Quando o crime acontece com alguém mais próximo, o choque é maior. Isso é natural, é humano.
No contexto desse caso, o que me chocou mais profundamente foi o fato de um garoto de onze anos - viciado em crack desde os nove - ser um dos participantes mais ativos do assalto.
Nesses dias tenho pensado na nossa responsabilidade diante disso tudo. Na falta de organização da nossa classe média, que poderia fazer tanto. Aponto o dedo para a minha profissão, jornalistas e escritores. O que nós, profissionais da palavra, temos feito a favor da paz? Muito pouco. Tenho orgulho de colegas que trabalham na redação falando corajosamente o que precisa ser dito. Mas morro de vergonha dos colunistas que estimulam a nossa elite a consumir, a ter, a aparecer e festejar com luxo e glamour. Infelizmente, a vida por aqui ainda não é uma festa. Não dá pra celebrar tanto assim enquanto a infância segue abandonada. Abandonada. Pelos pais, que sequer conhecem os filhos. Pelas mães, que sequer gostariam de ter filhos. Pela escola, que não oferece opção ao crime. Por nós, que assistimos calados enquanto a bala não chega perto.
Isso tudo tem me feito repensar meu trabalho, minha profissão e as possibilidades que tenho de contribuir. Acreditem, muita coisa pode mudar.

Escrito porSocorro Acioli às 9:28 AM  

3 Barulhinho bom...:

Aline disse... 10:15 AM  

Meus sentimentos pela perda de sua amiga. Li sobre o crime por alto e não sabia desse detalhe. É realmente um absurdo. O pior é que ao ler uma notícia dessas, grande parte da sociedade simplesmente condena o menino, mas não enxerga o abandono no qual ele vive. É revoltante? Sim, mas será que se ele tivesse carinho, amor, uma boa educação em casa e na escola, ele teria chegado a isso?
Bem, coloquei o link no twitter, ok?

Socorro Acioli disse... 10:27 AM  

Aline, ela não era exatamente minha amiga, mas mesmo quem não a conhecia ficou chocado com a crueldade de uma vida interrompida assim. É triste ver uma criança de onze anos ennvolvida nisso. E não é a única, infelizmente. São muitas. Inúmeras. Invisíveis para nós. Só aparecem assim, quando já é tarde demais.

Obrigada por divulgar no Twitter.

Bjs

Aline disse... 11:02 AM  

Ops! Li "nós éramos amigas". De qualquer forma, é chocante mesmo.

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